sábado, 22 de agosto de 2009

AS ENTRELINHAS

De vez em quando me sinto como quem toca harpa enquanto a cidade está em chamas. Com a atenção voltada quase exclusivamente para os temas próprios da experiência espiritual e religiosa é fácil perder de vista as intrincadas dimensões do cotidiano: o discurso religioso pode tender perigosamente à abstração, tornando-se atemporal e etéreo, como se já vivêssemos em outro mundo, o céu, tendo deixado a terra entregue à sua própria sorte ou aos urubus.

É verdade que a maldade humana e a bondade divina; a mortalidade e finitude da criatura diante da eternidade do Criador; pecado, culpa, condenação e danação face às possibilidades do perdão, da redenção e da salvação plena; arrependimento, fé, esperança e amor; são mesmo temas que não sofrem o desgaste do tempo e atingem consciências em abrangência universal. Mas não é menos verdadeiro que os fatos do cotidiano estão implicados no que chamamos vida: caso a espiritualidade não afetasse a trama diária, a experiência religiosa seria coisa de anjos e defuntos.

Por esta razão, o exercício constante de quem busca a vida de piedade e devoção religiosa deve, como sugere Henri Nouwen, "ler jornais de forma espiritual", pois "os jornais servem para nos ajudar a ler os sinais dos tempos e a dar sentido à vida". Nouwen ensinou que "Jesus não olha para os acontecimentos dos nossos dias apenas como uma série de incidentes e acidentes que pouco têm a ver conosco. Jesus olha para os eventos políticos, econômicos e sociais da nossa vida como sinais que apelam para uma interpretação espiritual".

Por trás do extraordinário jamaicano Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, se esconde a busca humana de identificação e superação dos limites; na face de Marina Silva se revela a insistência humana em crer na utopia; por entre os corredores do Senado Federal rastejam cobras peçonhantas que se valem da posição de poder para matar, roubar e destruir; o emaranhado de empresas fantasmas ligadas à Igreja Universal do Reino de Deus sugere a inescrupulosidade dos que fazem do sofrimento humano uma fonte de lucro e transformam a esperança em mercadoria, tudo em nome de Deus – não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.

Não foi sem razão que Karl Barth, teólogo protestante, disse que o cristão deve carregar em uma das mãos a Bíblia e na outra o jornal. Foi assim que, em meio à barbárie do nazismo, conseguiu "discernir os tempos" e atuar como principal redator da Declaração Teológica de Barmen, que estabeleceu critérios para as relações dos cristãos ameaçados por um Estado totalitário e da ideologia do nacional-socialismo. A Bíblia aponta o norte, o jornal aponta o chão. A Bíblia nos ajuda a enxergar o céu, o jornal nos livra de andarmos com a cabeça nas nuvens. A Bíblia é a resposta de Deus, o jornal, a pergunta dos homens.

Lendo o jornal com a Bíblia nas mãos conseguimos interpretar de modo espiritual o que está por trás da teia da vida e discernir o sentido mais profundo da história, que Nouwen compreende ser "um convite constante a voltarmos o coração para Deus".

2009 | Ed René Kivitz

domingo, 5 de julho de 2009

A TENTAÇÃO DO ATIVISMO

Por Henri Nouwen


Os discípulos falam de suas ações como manifestações da presença ativa de Deus. Eles agem, não para provar o seu próprio poder, mas para mostrar o poder de Deus; agem, não para redimir as pessoas, mas para revelar a graça redentora de Deus; agem, não para criar um mundo novo, mas para abrir corações e ouvidos para aquele que está sentado no trono e diz: "Eis que faço novas todas as coisas" (Ap 21.5).

Em nossa sociedade, que equipara o valor com a produtividade, a ação paciente é muito difícil. Estamos tão propensos a nos preocupar em fazer algo que tem valor, em realizar mudanças, planejar, organizar, estruturar e restaurar, que muitas vezes parece que esquecemos que não somos nós que redimimos, mas Deus. Estar "ocupado", estar "onde está a ação", estar "no auge das coisas", muitas vezes parece ter-se tornado a própria meta a ser atingida. Nós então esquecemos que a nossa vocação não é demonstrar os nossos poderes, mas a misericórdia de Deus.

A ação como forma da vida compassiva é prática difícil, justamente porque nós somos tão carentes de reconhecimento e de aceitação. Esta carência pode facilmente nos levar a nos conformarmos com a expectativa de que iremos oferecer algo de "novo". Numa sociedade que está interessada em novos encontros, tão ávida por novos acontecimentos, e tão sedenta de novas experiências, é difícil alguém não ser seduzido para um ativismo impaciente. Dificilmente nos damos conta desta sedução, especialmente porque aquilo que fazemos é tão obviamente "bom e religioso". Mas até mesmo o estabelecimento de um programa de ajuda, de alimentação dos que estão com fome e de assistência aos doentes pode ser mais uma expressão de nossas próprias necessidades do que um chamado de Deus.

Mas não sejamos tão moralistas a respeito disso: nunca poderemos alegar motivos isentos de interesse próprio, e é melhor agir com aqueles e por aqueles que sofrem do que esperar até que tenhamos completamente sob controle nossas próprias necessidades e os impulsos altruístas agindo plenamente em nós. Entretanto, é importante permanecermos críticos em relação às nossas tendências ativistas. Quando as nossas próprias necessidades começam a dominar as nossas ações, o serviço a longo prazo torna-se difícil, e nós logo ficamos exaustos, esgotados e até mesmo exacerbados pelos nossos esforços.

A fonte mais importante para combater a tentação constante de ceder ao ativismo é a consciência de que em Cristo tudo foi consumado. Esta consciência deveria ser estendida, não como um discernimento intelectual, mas como um entendimento na fé. Enquanto continuamos a agir como se a salvação do mundo dependesse de nós, carecemos da fé que move montanhas. Em Cristo, o sofrimento e a dor humana já foram aceitos e suportados; nele, a nossa humanidade enfraquecida foi reconciliada e admitida na intimidade do relacionamento entre o Pai e o Filho. Por isso, a nossa ação deve ser entendida como uma prática pela qual nós tornamos visível aquilo que já foi consumado. Esta ação se baseia na fé de que nós pisamos em terreno sólido mesmo quando estamos cercados pelo caos, pela confusão, pela violência e pelo ódio.

Deus não é um Deus de ódio e de violência, mas um Deus de ternura e de compaixão. Talvez somente aqueles que muito sofreram entenderão o que significa que Cristo sofreu as nossas dores e consumou a nossa reconciliação na cruz.

Henri Nouwen (1932 – 1996), escritor, preletor e mentor espiritual, foi professor nas Universidades de Harvard, Yale e Notre Dame, e passou a última década de sua vida pastoreando uma comunidade voltada para o cuidado de deficientes mentais, chamada Daybreak, em Toronto, Canadá.