sábado, 27 de dezembro de 2008

ESCOLHA O NOVO MUNDO

Escolha o mundo novo. Escolha, porque não dá para ficar em cima do muro. Você não tem como fugir da sua liberdade, pois, na verdade, ficar em cima do muro já é escolher: escolher deixar o mundo como está. Mas não esqueça que escolher não mudar é escolher morrer. Num mundo vivo e dinâmico, escolher ficar parado é o mesmo que escolher andar para trás. O tempo não para, e com ele leva tudo quanto é vivo. Escolher deixar como está para ver como é que fica é escolher deixar piorar. Fazer nada é contribuir para a degeneração, decomposição, destruição. Você não tem opção. Sua opção é fazer uma opção. Escolher não é uma palavra de ordem, é a constatação de um fato: você está sempre escolhendo. Nesse caso, escolha o mundo novo.

Escolha o mundo novo. Veja bem: "o" mundo novo, e não "um" mundo novo. Você não está diante da opção de escolher um dentre vários mundos. Só existe um mundo, e é esse aqui. Não existe outro. (Ou se preferir, existem muitos mundos, mas são todos nesse aqui). Não é possível mudar de mundo. Só é possível mudar o mundo. Então escolha o mundo novo. Mas não se esqueça que este mundo vai ser mudado. O tempo não pára, lembra? As coisas vão mudar, independentemente das suas escolhas. Então a melhor coisa que você tem a fazer é escolher as mudanças que acontecerão. O mundo não pode ser abandonado no piloto automático. Deus entregou esse mundo para ser pilotado por você. Então escolha para que lado você quer que ele vá, porque ele vai de qualquer jeito, e vai rápido. Não se conforme com o que está, pois o mundo está o que não é. Escolha o mundo novo.

Escolha o mundo novo. Novo porque diferente. Novo porque melhor. Novo porque em processo de redenção. Novo porque em mudança. É claro, não somos ingênuos, jamais conseguiremos transformar este mundo completamente, jamais este caos será um jardim. Mas é possível plantar jardins no meio do caos. Escolha os jardins. Faça o mundo novo. Não dá para acabar com a fome, mas dá para repartir o pão. Não dá para solucionar todos os problemas do mundo, mas dá para fazer parte da solução, e não do problema. Então, escolha mudar o mundo. O quanto possível. Acredite que o mundo um pouco diferente já é um mundo novo.

Feche a torneira enquanto escova os dentes. Ensine uma criança a ler. Recicle o lixo. Seja profissional. Seja voluntário, voluntária. Ajude seu amigo a encontrar emprego. Doe uma cesta básica. Sindicalize-se. Subscreva aquele protesto. Leia jornais. Financie um projeto social idôneo. Exija nota fiscal. Diga não ao aborto. Valorize os professores. Apóie as campanhas contra o cigarro e as bebidas. Vacine seu filho. Vote. Apague a luz ao sair da sala. Não desperdice alimentos. Denuncie a violência doméstica. Seja um doador, uma doadora. Adote uma causa justa. Diga não às drogas. Comprometa-se com o evangelho do Reino: o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens. Enfim, assuma de vez a fé cristã. Cristianismo já. Mundo novo sempre.

Fonte: Ed René Kivitz

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O MENINO E O CORDEIRO

O infante Jesus foi presenteado pelos magos do Oriente: "E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, e entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra" (Mateus 2.1,11). O Cordeiro que foi morto recebe adoração da população do céu: "Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação; e para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra... Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças" (Apocalipse 5.9,10,12).

O menino e o Cordeiro, não apenas recebem adoração, como também, e principalmente, são adoradores. As crianças adoram com perfeição: "Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia, e os meninos clamando no templo: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se,e disseram-lhe: Ouves o que estes dizem? E Jesus lhes disse: Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?" (Mateus 21.15,16). O Cordeiro que foi morto venceu a morte com sua ressurreição, mas ele mesmo não retém a glória para si: "Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai" (Filipenses 2.10,11).

Enquanto recebem a adoração no Natal, o menino e o Cordeiro ensinam como Deus, o Pai, quer e deve ser adorado. Num mundo de truculência e violência, que preconiza e celebra a sobrevivência dos mais fortes e mais aptos, o que justifica a força bruta dos poderosos que se impõem sobre os fracos e desvalidos, Deus se ergue como aquele que alcança sua vitória através da pureza frágil do menino e da vulnerabilidade sacrificial do Cordeiro. O que permanece para sempre não é força do braço, mas a força do louvor ao único que é digno. A sustentabilidade do mundo não depende das conquistas dos violentos, mas do favor daqueles que voluntariamente se entregam como dádivas da graça que a todos alcança, a todos inclui e a todos sustenta. A beleza da vida não está no vigor esmagador dos que se impõem em busca de sua autopreservação e bem estar egocêntrico, mas na singeleza dos que se sacrificam em favor de todos.

O Natal do menino e do Cordeiro profetiza que "Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes, pois a fraqueza de Deus é mais forte do que a força dos homens" (1Coríntios 1.25,27). O Natal anuncia que o futuro da humanidade não está nas mãos dos senhores da guerra, mas nas mãos de uma criança, "pois um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 9.6), e o seu reino jamais terá fim.


 

© 2008 Ed René Kivitz

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

QUE A ESTRELA TE ORIENTE

É Natal.

Mais uma vez celebramos o aniversário de Jesus.

Como de costume nas festas de aniversários, gostaríamos de dar presentes a Jesus. Gostaríamos de estar com os magos que levaram a ele ouro, incenso e mirra. Seria muito bom se pudéssemos expressar a ele o nosso amor, levando nossos presentes, organizando uma festa surpresa, cantando e dançando com alegria ao redor de uma mesa farta, na companhia de muitos irmãos.

Mas o tempo correu longe. Já são mais de dois mil anos. Jesus já morreu, ressuscitou e subiu aos céus. Agora ele não é mais o menino na manjedoura. Não tem mais graça dar a ele alguns brinquedos, ferramentas novas para que ele faça seu trabalho de carpinteiro, nem mesmo dar a ele os presentes caros que damos aos príncipes e reis.

Mas achamos um jeito de dar presentes a Jesus e temos certeza que ele vai ficar muito feliz com a festa que vamos preparar para ele.

Para falar a verdade, foi ele mesmo quem nos ensinou isso. Nunca teríamos essa idéia, jamais teríamos pensado nisso. Mas ele pensou. Pensou e contou para nós a idéia que teve. Ele disse que quando quiséssemos dar presentes ou fazer uma festa para ele, a gente deveria procurar os que estão presos, doentes, com fome e sede, fazer uma festa e dar os presentes todos para eles.

"Tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram.

Então os justos lhe perguntarão: Quando fizemos isso, Senhor?

Jesus responderá: Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a alguns dos meus menores irmãos, a mim o fizeram".

Neste Natal vamos em busca dos "irmãos menores". Menores, não em sua dignidade intrínseca, pois, como todos os irmãos, também foram criados à imagem e semelhança de seu pai celestial. Mas menores devido às circunstâncias de suas vida. Menores em seus horizontes de existência e sobrevivência. Menores em sua condição de desamparo e fragilidade. Menores em sua situação de esquecidos, negligenciados, desconsiderados e não contados entre as gentes.

Para encontrar nossos irmãos menores seguiremos a estrela. Aquela estrela que guiou os magos do oriente até o menino Jesus, também nos guiará. E quando encontrarmos Jesus na face dos nossos menores irmãos, vamos dar presentes a Jesus e fazer uma linda festa de aniversário para ele.
É assim que Jesus quer ser servido, amado e adorado: através do nosso serviço espontâneo, voluntário e abnegado. Mal podemos esperar para ver o sorriso de Jesus no dia da festa. Aliás, achamos mesmo que ele vai chorar.

Você também está convidado para a festa. Para participar, deixe que a estrela te oriente.


 

© 2007 Ed René Kivitz

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A PEDAGOGIA DO NATAL

O Natal é pedagógico. Nossos olhos precisam estar abertos e nossos ouvidos atentos ao que Deus quer nos ensinar através do nascimento, vida e morte de Jesus. Destacamos alguns pontos para nossa reflexão:

1. O nascimento de Jesus nos ensina uma lição de humildade - Jesus nos ensina através do seu nascimento. Ele é o Rei que nasceu servo, o Deus que se fez homem, o transcendente que se esvaziou de sua glória. O dono do mundo não nasceu num berço de ouro, mas num coxo de palha. O criador dos céus e da terra, o Deus encarnado, diferente dos nobres deste mundo, não nasceu debaixo das luzes da ribalta, dos flashes da popularidade; ao contrário, não havia lugar para ele em Belém. Ao nascer foi perseguido pelo rei Herodes. Precisou cruzar o inóspito e causticante deserto do Sinai e atravessar o deserto do Saara, e fugir para o Egito, para escapar da perseguição de um rei louco. Jesus cresceu como um carpinteiro na pobre vila de Nazaré. Começou o seu ministério como um rabino itinerante, que não tinha onde reclinar a cabeça. Sendo rico se fez pobre. Sendo servido pelos anjos no céu, cingiu-se com um avental e lavou os pés dos discípulos, que infantilmente, disputavam entre si, um lugar de honra na feira das vaidades humanas.

2. A vida de Jesus nos ensina uma lição de amor altruísta - Jesus nos ensina não apenas através do seu nascimento, mas também, através da sua vida. Ele veio não para ser servido, mas para servir. Ele se manifestou para levantar o caído, animar o fraco, salvar o perdido, curar o enfermo e restaurar o quebrado. Ele andou por toda parte fazendo o bem e libertando os oprimidos do diabo. A pregação, o ensino e a cura estavam sempre no topo de sua agenda. Sua doçura atraía as crianças. Sua compaixão enternecia os publicanos. Seu amor inefável abria a porta da esperança para os enjeitados da sociedade. Todos aqueles que se achegavam a ele com o coração quebrantado, recebiam o perdão. Todos os aflitos que buscavam nele alívio, saíam consolados. Jesus veio ao mundo para revelar-nos o coração amoroso do Pai. Ele é o caminho que nos leva de volta ao Pai. Ele é a porta que nos dá acesso ao trono da graça. Por meio dele podemos entrar na sala do Trono e ter comunhão com o Deus de amor.

3. A morte de Jesus nos ensina uma lição de sacrifício abnegado - Jesus nos ensina através da sua morte. Ele veio ao mundo para dar sua vida em favor dos seus escolhidos. Ele morreu pela sua igreja. Ele deu a vida pelas suas ovelhas. Sendo Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus, antes se esvaziou e se humilhou até à morte e morte de cruz. Jesus ofereceu sua vida. Sua morte foi voluntária. Ninguém podia tirá-la dele, ao contrário, espontaneamente ele a deu. Ele caminhou para a cruz como um rei caminha para a coroação. Na cruz ele nos comprou para Deus. Na cruz ele pagou a nossa dívida. Sua morte foi substitutiva. Ele morreu a nossa morte. Ele sofreu o nosso castigo. Ele se fez pecado e maldição por nós, para que fôssemos santos e benditos para sempre. O patíbulo da sua dor e de sua horrenda morte, tornou-se a fonte de onde jorrou para nós copiosa redenção. Num sentido a morte de Cristo é única e não podemos imitá-lo. Só ele pôde morrer vicariamente. Noutro, sentido, porém, aprendemos com Jesus em sua morte, que devemos também dar a nossa vida pelos irmãos (1 Jo 3:16).
Jesus nos ensina no tempo e na eternidade. Ele é o nosso modelo agora e sempre. Ele nos disse: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração" (Mt 11:29).

No Natal que se aproxima, precisamos pensar menos na festa e mais na Pessoa de Jesus. Precisamos devolver a Jesus o sentido do Natal. As luzes, os cânticos, as iguarias, os presentes e toda a nossa agitação são vazios de significado se Jesus não for o centro da nossa vida, da nossa família, da nossa igreja. Que neste Natal possamos honrar aquele que desceu do céu para nos levar ao céu, aprendendo com seu nascimento, vida e morte.

Rev. Hernandes Dias Lopes.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Há controvérsias

Gostamos de afirmações categóricas, declarações definitivas e certezas. Não gostamos de perguntas, considerações provisórias, dúvidas, debates e discussões. Gostamos de respostas prontas e critérios claramente definidos. Não gostamos de probabilidades, possibilidades e indicadores relativos. Gostamos de "isso ou aquilo". Não gostamos de "isso e aquilo". Gostamos de "certo e errado". Não gostamos de "nem certo, nem errado", apenas diferente.

Deus é amor. Deus é justiça. Quando, então, devemos agir com amor, e quando devemos optar pela justiça? Exigimos: uma coisa ou outra, categoricamente, sem necessidade de interpretações. Dizer que somente a ação amorosa é justa e somente a ação justa é amorosa deixa margens para mal entendidos e, consequentemente, confusão. Melhor é escolher entre uma coisa e outra; as duas, não dá. Ou amor. Ou justiça.

Talvez por isso sejam poucos os que se aventuram pelas trilhas do discipulado de Jesus. Seguir a Jesus implica abandonar o jugo da lei para buscar a justiça do reino de Deus. A justiça sempre extrapola a lei. O ser humano é complexo demais para que suas ações sejam resumidas a um conjunto de "isso pode e isso não pode". A vida é complexa demais para que tenha suas circunstâncias definidas em termos absolutos por mandamentos, regras e normas de procedimento. A vida não cabe num manual.

Responda rápido: meu filho adolescente não está bem na escola. Devo ser duro na disciplina ou compreensivo nesta fase de conflitos e mudanças? Estou absolutamente convencido de algo, mas minha esposa não quer assumir riscos. Devo seguir em frente e fazer a coisa sozinho ou devo esperar um pouco mais para tentar chegar a um consenso? Meu marido não agüenta mais a pressão no trabalho. Devo encorajar que ele peça demissão e cuide de sua saúde psíquica e emocional ou devo ajudá-lo a superar essa fase difícil, lembrando a dificuldade que é arrumar um outro emprego? Meus pais se intrometem demais na educação que dou aos meus filhos. Devo ter uma conversa franca com a mamãe e arrumar uma tremenda confusão ou devo continuar pedindo ao meu marido que compreenda minha situação e administrar nosso conflito conjugal? Meu amigo me confessou um pecado. Devo contar a quem de direito e forçar a solução da situação ou devo dar a ele o tempo de que precisa para tomar providências - quanto tempo devo dar a ele? Descobri uma falcatrua na empresa. Devo colocar a boca no mundo e denunciar os colegas ou devo ficar quieto, deixando que os responsáveis cuidem do problema? Tenho um ótimo funcionário que compromete o ambiente da equipe. Devo manter o funcionário e sacrificar a equipe ou preservar a equipe e sacrificar o funcionário? Meu pai está em tratamento médico. Devo vigiar rigorosamente seus hábitos alimentares ou devo deixar que ele faça uma extravagância de vez em quando?

Pois é, a vida é assim. As coisas que realmente importam não têm respostas fáceis, nem exatas, nem podem ser padronizadas em conselhos do tipo "faça sempre assim" ou "nunca faça isso". Tomar decisões é uma arte que carece de boa consciência. E a boa consciência não é aquela que sabe, é aquela que ama. Como bem disse Santo Agostinho, "ama, e faze o que quiseres", o que significa que quando a gente ama não existe certo e errado, certo? Há controvérsias.

© 2008 Ed René Kivitz

sábado, 6 de dezembro de 2008

O TRIUNFO DA CRUZ

Falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. (1 Coríntios 2.7,8)


René Girard, antropólogo, interpreta esta afirmação do apóstolo Paulo dizendo que "Satanás foi enganado pela cruz": "A sabedoria divina previra, desde sempre, que o mecanismo vitimário seria virado do avesso, desvendado, revelado, desativado nos relatos da paixão, e que nem Satanás, nem as forças poderiam impedir esta revelação. Quando desencadeou o mecanismo vitimário contra Jesus, Satanás julgava proteger o seu reino, defender o seu bem, sem se dar conta de que fazia exatamente o contrário. Fazia, precisamente, aquilo que Deus desejava que fizesse. Só Satanás podia por em ação, sem suspeitar, o processo de sua própria destruição [...] Deus permitiu a Satanás reinar, durante um certo tempo, sobre a Humanidade, prevendo que, chegado o momento, o venceria ao morrer na Cruz. Graças a esta morte, e a sabedoria divina sabia-o, o mecanismo vitimário seria neutralizado e, longe de se opor eficazmente a este fato, Satanás participa nele sem o saber".

Girard entende que Satanás aprisiona os homens num sistema de perseguições e sacrifícios, atados a uma necessidade de encontrar bodes expiatórios para suas culpas. Mas enquanto agia por trás do processo que levou Jesus à Cruz, isto é, empurrando uma vítima inocente ao sacrifício, o próprio Satanás pôs sua verdade à disposição dos homens, isto é, desmascarou sua própria mentira, tornou a verdade de Deus universalmente legível.

A "verdade de Deus" revelada na cruz de Cristo pode ser decomposta em duas afirmações. A primeira é que toda violência cometida em nome de Deus é injustificada, pois o sofrimento da cruz é o preço que Jesus aceita pagar para que Deus e a violência se afastem um do outro definitivamente. Jesus Cristo é a única e última vítima sacrificada pela culpa humana.

A segunda é que toda exigência de sacrifício em nome de Deus é injustificada, pois a cruz anula definitivamente a necessidade de fazer vítimas para que a ordem seja estabelecida e ou mantida. O sacrifício de Jesus Cristo na cruz do Calvário desacredita e torna inútil todo outro sacrifício. É por essa razão que a defesa das vítimas se tornou sagrada. Um inocente foi morto de uma vez por todos, para que ninguém, jamais, fosse morto ou sacrificado em nome de Deus ou da ordem. A ordem, agora, se impõe pela defesa das vítimas. Pois Deus se fez um com as vítimas do mal e, no Cordeiro que foi morto e ressuscitou ao terceiro dia, triunfou por toda a eternidade.


 

© 2008 Ed René Kivitz

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Deus conosco

O Salmo 23 é o testemunho de Davi a respeito de seu relacionamento com Deus. Revela a maneira como Davi percebia e experimentava Deus. Caso alguém pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele diria Deus é o meu Senhor/Pastor, é Aquele que me supre, guia, restaura, acompanha na adversidade, protege dos inimigos e me cobre de misericórdia e bondade. Uma leitura teológico-sistemática diria que Deus pode ser chamado de Provedor (águas tranquilas, pastos verdes, e refrigério para a alma), Condutor (guia pelas veredas da justiça) e Protetor (vara e cajado no vale da sombra da morte, mesa farta na presença dos inimigos, bondade e misericórdia todos os dias) dos seus filhos.

Mas devo confessar minhas incredulidades. Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Provedor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais passarei por privações financeiras, jamais ficarei desempregado, jamais endividado, jamais irei mal nos negócios, jamais ficarei mais pobre do que sou hoje, jamais precisarei da ajuda de terceiros, a resposta desta vez é um peremptório NÃO.

Caso você me pergunte se creio em Deus como meu Condutor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais tomarei decisões erradas, jamais escolherei o caminho da injustiça, jamais terei meus planos frustrados e castelos desmoronados, jamais ficarei indeciso e sem saber para onde ir, desta vez a resposta é igualmente um peremptório NÃO. Igualmente, caso você me pergunte se creio em Deus como meu Protetor, a resposta é um peremptório SIM. Mas se perguntar se isso significa que creio que jamais serei tocado pelas fatalidades, jamais serei alcançado pela tragédia, jamais serei ferido pela maldade, jamais serei injustiçado, jamais sofrerei perdas ou danos, mais uma vez a resposta é um definitivo NÃO.

A convicção quanto à provisão, orientação e proteção de Deus não nos isenta das possibilidades de fracassos, fatalidades, privações e ferimentos, tudo isso, ônus do direito de viver. A própria biografia de Davi me autoriza a tal afirmação. O início de sua trajetória rumo ao trono foi marcado por perseguição e ódio. Seu primeiro exército foi composto da escória da sociedade: endividados, angustiados e pessoas descartadas pela sociedade de então. Davi teve um filho que estuprou uma filha e depois foi assassinado pelo irmão. Depois disso, Davi usurpou seu poder de Rei e tomou para si a mulher de um de seus comandantes militares, que mandou matar: adultério e assassinato. O filho de seu adultério foi morto por ato disciplinar de Deus. O filho fratricida se revoltou contra sua autoridade e liderou uma rebelião no reino de Israel. Este filho rebelde foi morto pelo exército real e depois Davi teve que comparecer diante do povo para agradecer e honrar os assassinos do seu próprio filho, por quem chorou, desejando ter morrido em seu lugar. Qualquer pessoa poderia questionar que tipo de Provedor, Condutor e Protetor é esse que permite uma biografia marcada por tragédias, crimes, ódios, e pecados suficientes para determinar a infelicidade crônica de qualquer mortal.

Isso me leva a crer que as afirmações de Davi no Salmo 23 devem ser interpretadas de outra maneira, distinta daquela que nos leva a crer que Deus nos coloca dentro de uma bolha de bem-estar, conforto, e prosperidade inabaláveis. Por esta razão, creio que a expressão que sustenta o relacionamento entre Davi e Deus não apresenta Deus como Provedor, Condutor ou Protetor. Estas dimensões do relacionamento pertencem a Deus, e nas mãos de Deus está a prerrogativa de como prover, conduzir e proteger os seus. A expressão que determina a qualidade do relacionamento entre Davi e Deus é "tu estás comigo". Caso você pedisse a Davi que descrevesse o seu Deus, ele deixaria de lado a teologia sistemática e falaria com o coração: Deus é meu grande companheiro. Ele está sempre comigo. Esteve comigo na caverna de Adulão. Esteve comigo quando Saul corria atrás de mim para me matar. Esteve comigo quando meus filhos se matavam e se odiavam. Esteve comigo quando eu não soube o que fazer para estancar o ódio dentro da minha casa. Esteve comigo quando eu andava pela escuridão usurpando, matando, mentindo. Esteve comigo quando meu filho conspirava contra mim. Esteve comigo quando eu precisei superar a minha dor para resguardar a autoridade do meu exército e preservar a unidade do exército e do povo. Deus é meu grande companheiro.

Minha leitura deste Salmo 23 me ensinou duas coisas essenciais. Primeiro, me ensinou que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas sim naquilo que Deus pode fazer em mim. As expectativas que tenho a respeito de Deus não estão relacionadas ao que Ele pode fazer em minhas circunstâncias, mas sim ao que Ele pode fazer em meu coração.

Afirmar "o Senhor é meu Pastor e nada me faltará" implica um caminho livre de ansiedade e repleto de satisfação. Espero que o dia da escassez nunca bata à minha porta, mas se chegar, o que mais espero é poder dizer que "aprendi a estar contente em qualquer situação, porque Deus está comigo, e posso superar qualquer circunstância ruim naquele que me fortalece".

Afirmar que "ele me conduz às águas tranqüilas, aos pastos verdejantes e restaura a minha alma", implica um caminho de serenidade e saúde emocional. Tenho certeza que Deus tem o seu caminho no meio da tormenta, e mesmo no deserto, me levará aos mananciais onde poderei ser restaurado no corpo e na alma. Espero jamais passar pelo que Paulo apóstolo passou, mas caso necessário, o que mais espero é também poder dizer que "combati o bom combate, terminei a carreira e guardei a fé: estou inteiro e passaria por tudo novamente".

Afirmar que Deus prepara uma mesa na presença dos meus inimigos e unge a minha cabeça com óleo, implica um caminho onde a alegria é possível mesmo quando o que é mal está diante dos nossos olhos. Espero que o ódio do mundo e do mal não se materializem contra mim de forma tão visível e explícita, mas caso aconteça, espero muito mais ter a coragem de continuar em frente, com os olhos fitos na mesa posta pelo Bom Pastor que me prometeu vida abundante no meio dos lobos.

A segunda coisa que aprendi lendo o Salmo 23 é que não devo basear meu relacionamento com Deus naquilo que Deus pode fazer por mim, mas no que eu posso fazer tendo um Deus como Ele. Diante dos vales de sombra da morte, não devo ficar esperando que Deus me leve para longe do vale, ou que Deus afaste do vale a sombra da morte. No dia em que tudo ficar escuro, espero me não me deixar tomar por um espírito de covardia, mas me levantar movido pelo espírito de amor, moderação, e poder, para atravessar o vale com a dignidade que somente os que afirmam "Deus está comigo" podem ter.

Que venha o futuro – ou melhor, eu vou ao futuro sentado na confortável poltrona 23.

Ed René Kivtiz